Perturbação de Movimentos Estereotipados

Perturbação de movimentos estereotipados ou o primado da medicina hipócrática na clínica de pediatria do neurodesenvolvimento

De acordo com o DSM-5 (1) (Maio de 2013), a principal característica da Perturbação de Movimentos Estereotipados (PME) é um determinado comportamento motor com carácter repetitivo, aparentemente impulsivo e sem motivo (Critério A). Estes comportamentos são, no geral, movimentos ritmados da cabeça, mãos ou do corpo sem uma óbvia função adaptativa. Estes movimentos poderão cessar ou mesmo não serem desencadeados em resposta a um esforço do sujeito nesse sentido. No que se refere às crianças com um neurodesenvolvimento convencional, mormente cognitivo e linguístico, os comportamentos repetitivos e estereotipados poderão ser interrompidos quando aqueles focalizam a atenção ou se distraem (focam a atenção em outras actividades ou pensamentos). Já no que se refere aos sujeitos com graves perturbações do neurodesenvolvimento, particularmente com Perturbação do Desenvolvimento Intelectual, (a incidência de PME nesta população está estimada em 4 a 16%) estes comportamentos respondem pior a tais esforços. Noutros casos, o sujeito demonstra comportamentos de auto-restrição, ou seja, tenta substituir os movimentos estereotipados por outros socialmente mais convencionais (ex: sentar-se em cima das mãos, enrolar as mãos na roupa, etc.).

O repertório de comportamentos é assaz variável; cada sujeito apresenta um padrão próprio. Exemplos de movimentos estereotipados que não causam auto-lesões incluem os balanceamentos do corpo e da cabeça, o flapping (esvoaçar) das mãos e dos braços, os maneirismos com os dedos, o bater palmas descontextualizado, o colocar os dedos nos ouvidos, o rodopiar, etc, …. Os comportamentos auto-lesivos incluem, por exemplo, dar bofetadas a si próprio, pressionar os olhos, morder as mãos, os lábios, …. Num mesmo sujeito poderão coexistir vários destes movimentos repetitivos e estereotipados.

Os movimentos estereotipados podem ocorrer várias vezes durante o dia, durante apenas alguns segundos, minutos ou mais tempo. Os comportamentos variam consoante o contexto (ocorrem mais frequentemente quando o sujeito está concentrado, excitado, ansioso, cansado ou aborrecido). O Critério A requer que estes movimentos sejam aparentemente sem causa. Contudo, alguns movimentos estereotipados servem para controlar outros. Por exemplo, para reduzir a ansiedade.

O Critério B refere que os movimentos estereotipados têm de interferir na vida social, académica ou em outras actividades e podem resultar em auto-lesões. Quando resultam em auto-lesões, é necessário especificar a sua gravidade. Se não houver quaisquer consequências ou interferências a estes níveis, o critério B não está preenchido e não poderemos formular o diagnóstico de Perturbação de Movimentos Estereotipados.

Este Perturbação tem início na fase precoce do desenvolvimento (Critério C). Não pode ser atribuído a uma condição neurológica, nem devido a uma perturbação do neurodesenvolvimento. A presença do Perturbação dos movimentos estereotipados pode indicar um problema neurodesenvolvimental não detectado, especialmente em crianças entre um e três anos de idade.

De um ponto de vista clínico, interessa realçar que estereotipias simples são comuns em crianças pequenas com um neurodesenvolvimento convencional. São exemplos o flapping e o rodopiar sobre si mesmo em crianças sem problemas neurodesenvolvimentais abaixo dos 30 meses de idade (Miguel Palha, Lições de Neurodesenvolvimento, não publicadas). Com o tempo, há uma tendência para a dissipação destas estereotipias. Todavia, se o sujeito apresentar um défice cognitivo, este período estende-se muito para lá dos 30 meses de idade, dependendo da dimensão qualitativa e quantitativa do mencionado défice. Os movimentos complexos, mais espectaculares, são muito menos frequentes e observam-se, as mais das vezes, em sujeitos com Perturbação do Desenvolvimento Intelectual. Nestes, quanto mais grave for o Défice Cognitivo, maior será a prevalência de PME.

Perante uma criança que apresenta movimentos repetitivos e estereotipados, o pediatra do neurodesenvolvimento terá de responder a três questões:

  1. Há algum défice sensorial significativo, designadamente visual?
  2. A interacção social é convencional, mormente a reciprocidade social?
  3. O neurodesenvolvimento cognitivo é convencional?

Relativamente à primeira questão – Há algum défice sensorial significativo, designadamente visual? -, é consabido que graves défices visuais se acompanham de movimentos estereotipados e repetitivos, como balanceamentos, relacionados com a estimulação vestibular. Por conseguinte, estes movimentos não poderão ser enquadrados fenomenologicamente no âmbito das perturbações neurodesenvolvimentais.

No que concerne à segunda questão – A interacção social é convencional, mormente a reciprocidade social? -, o problema reside na possibilidade de se poder, ou não, formular o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo. Com efeito, de forma sucinta, as Perturbações do Espectro do Autismo (PEA) correspondem à associação sindromática de comportamentos repetitivos, estereotipados e restritos a dificuldades na interacção social. Por outras palavras, na presença de movimentos estereotipados associados a dificuldades graves na socialização, estaremos, muito provavelmente, perante uma Perturbação do Espectro do Autismo. Consequentemente, o diagnóstico de PME não poderá ser formulado em co-morbilidade com o diagnóstico de Perturbação do Espectro do Autismo.

No que se refere à terceira questão – O neurodesenvolvimento cognitivo é convencional? -, importa saber se os movimentos estereotipados ocorrem num sujeito com Défice Cognitivo, uma vez que, qualitativa e quantitativamente, a PME poderá ser consideravelmente mais grave. Neste caso, de um ponto de vista clínico, temos de perceber se há, ou não, discrepância significativa entre a cognição verbal/não-verbal e a cognição social. Se a cognição social estiver desproporcionalmente afectada relativamente à cognição verbal/não-verbal, deveremos evocar os diagnósticos de PDI e PEA em co-morbilidade. Pelo contrário, se não houver discrepância significativa (o juízo será sempre clínico já que não estão disponíveis meios auxiliares de diagnóstico credíveis!) entre a cognição social e a cognição verbal/não verbal, os diagnósticos mais plausíveis serão os de PDI e PME.

A distinção entre movimentos estereotipados e tiques poderá não ser fácil. Todavia, geralmente, as estereotipias têm o seu início mais precoce (antes dos três anos de idade), enquanto os tiques são notados, as mais das vezes, após os cinco a seis anos de idade; os tiques são mais variáveis (menos fixos e consistentes) e mais breves, aleatórios e flutuantes. Pelo contrário, as estereotipias são mais fixas, rítmicas e prolongadas em duração. Ambos se reduzem pela distracção. Em determinadas situações, a distinção entre tiques e estereotipias é difícil, razão por que, qual medicina hipocrática, o juízo será sempre clínico!

Um movimento estereotipado curioso é a Jactatio Capitis. Trata-se de uma estereotipia de adormecimento (rodar a cabeça e, às vezes, o corpo), relativamente comum e de significado incerto (ocorre, amiúde, numa população sem qualquer patologia).

Hábitos repetitivos (enrolar o cabelo, morder o lábio, …), maneirismos, discinésias, coreia, mioclonias, distonia, etc., …são diferentes de movimentos estereotipados. Todavia, em todos os casos de movimentos repetitivos, deverá ser realizado um cuidadoso: exame neurológico. As estereotipias também devem ser diferenciadas dos movimentos característicos da coceira e da escoriação (por prurido ou contacto/consumo de substâncias, …).

A Perturbação Obsessivo-Compulsiva define-se, basicamente, pela presença de compulsões (comportamentos confundíveis com as estereotipias) em resposta a uma obsessão ou de acordo com regras que têm de ser aplicadas rigidamente; na PME os movimentos estereotipados não têm qualquer propósito.

No adolescente e adulto, o aparecimento de estereotipias deverá fazer evocar o diagnóstico de perturbações do foro psicótico.

A PME é particularmente frequente em determinadas síndromes genéticas como a síndrome de Rett, a síndrome de Lesch-Nyhan, a síndrome de Cornelia de Lange, a trissomia 21, a síndrome do x frágil e a síndrome de Smith-Magenis.

A terapêutica consiste, essencialmente, na desestigmatização das manifestações (sujeito, família, escola, comunidade, …) e, se necessário, no apoio psicológico (cognitivo-comportamental) e na prescrição de um neuroléptico, idealmente de última geração.

Algoritmo diagnóstico dos movimentos estereotipados

(de acordo com Miguel Palha e Lisandra Domingues, 2016, publicado em http://www.diferencas.net)

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CRITÉRIOS CLASSIFICATIVOS DA PERTURBAÇÃO DE MOVIMENTOS ESTEREOTIPADOS DE ACORDO COM O DSM-5

  1. Comportamento motor repetitivo, estereotipado, aparentemente dirigido e sem motivo. Ex: mão “trémula” ou abanando, balançar o corpo e a cabeça, bater-se e morder-se a si próprio;
  2. O Perturbação dos movimentos estereotipados interfere na vida social, académica e em outras actividades e podem resultar em auto-lesões;
  3. Tem início na fase precoce do desenvolvimento;
  4. O Perturbação dos movimentos estereotipados não é atribuível aos efeitos fisiológicos de uma substância ou condição neurológica e não é explicada por uma outra desordem neurodesenvolvimental ou mental (ex: tricotilomania [desordem caracterizada pelo arrancamento repetitivo e sistemático de cabelo], perturbação obsessivo-compulsiva, …)

Especificar-se:

  • Envolve auto-lesões (ou comportamentos que resultem numa lesão se não forem usadas medidas preventivas);
  • Não envolve auto-lesões;
  • É associado a uma condição médica ou genética, neurodesenvolvimental ou a um factor ambiental conhecidos (Ex: síndrome de Lesch-Nyhan; perturbação do desenvolvimento intelectual; exposição alcoólica intra-uterina, …).
  • Especificar a gravidade:

Ligeiro – os sintomas são facilmente suprimidos por estímulos sensoriais ou por distracção;

Moderado – os sintomas requerem medidas protectoras e modificação comportamental explícita;

Grave – são necessárias medidas protectoras e monitorização contínua para prevenir danos sérios

Especificadores:

A gravidade dos movimentos estereotipados que não são auto-agressivos varia de manifestações ligeiras que são facilmente reprimidas por estímulos sensoriais ou distracção aos movimentos contínuos que interferem significativamente com todas as actividades da vida diária. Os comportamentos que envolvem auto-lesões variam a sua gravidade ao longo de várias dimensões, incluindo a frequência, o impacto no funcionamento adaptativo e a gravidade da lesão corporal (de leve contusão ou eritema, para lacerações ou amputação, de descolamento de retina, …).

(1) American Psychiatric Association (2014) “Perturbações do Depressivas”, in DSM – 5, Lisboa: Climepsi Editores, páginas 184-190.

Francisca de Castro Palha
Interna de Pediatria do Centro Hospitalar Lisboa Norte