Recém Nascidos com factores de risco no período peri-natal

Prematuridade Tardia

Todos os recém-nascidos cujo parto ocorre entre as 34 semanas e as 36 semanas e 6 dias de gestação são considerados Prematuros Tardios (PT). Constituem o sugbrupo mais numeroso de todos os prematuros (cerca de 75%) e foram considerados, até 2005, como quase “de termo”.

As últimas seis semanas de gestação (34ª à 40ª) representam um período crítico para o crescimento e desenvolvimento cerebral fetal (é mesmo a altura da gravidez em que este crescimento é mais acelerado), assim como de outros sistemas do organismo humano.

Assim sendo, trata-se de recém-nascidos fisiologicamente imaturos, que apresentam respostas compensatórias limitadas quando expostos ao ambiente extrauterino.

Ora, existe, actualmente, uma maior consciencialização para o facto destas crianças serem mais vulneráveis a lesões cerebrais do que as crianças nascidas de termo – lesões estas (frequentemente multifactoriais) resultantes não só da prematuridade, como também das situações que desencadearam o parto de uma forma precoce.

Mas dado que a sua grande maioria apresenta um desenvolvimento convencional, este subgrupo de crianças prematuras não é, habitualmente, englobado em quaisquer programas de seguimento neurodesenvolvimental.

Durante a última década, vários foram os investigadores que aumentaram a abrangência dos seus estudos, passando a contemplar o prognóstico neurodesenvolvimental de todos os prematuros, ou seja, não só dos prematuros com idade gestacional inferior a 34 semanas, mas também dos Prematuros Tardios.

Diversos destes estudos vieram demonstrar evidências consideráveis de existência de um risco mais elevado de sequelas, a curto e longo prazo, nestas crianças, englobando desde uma taxa de mortalidade três vezes superior à população de termo, a um aumento significativo da sua morbilidade.

No longo prazo, os recém-nascidos PT podem mesmo apresentar diversas morbilidades neurodesenvolvimentais, com alterações ao nível do desempenho motor, linguístico, académico e das funções executivas.

Como tal, apesar dos riscos serem inferiores aos dos recém-nascidos com idade gestacional inferior às 34 semanas, existem, cada vez mais, indicações de que estas crianças devem ser submetidas a programas de follow-up sistemáticos, ou assistemáticos desde que englobando alturas críticas e previamente definidas (nomeadamente antes da entrada para o 1º ciclo).

Não existe uma faixa etária limite para o seguimento dos recém-nascidos PT.

Dado que as investigações demonstraram que existem riscos acrescidos durante a infância e adolescência, o seguimento deverá manter-se enquanto for necessário, com graus variáveis de vigilância, reflectindo as necessidades individuais de cada um.

Desta forma, estes programas possibilitam a detecção precoce de crianças com patologia neurodesenvolvimental e o início de intervenção adequada às suas dificuldades, permitindo minimizar as suas dificuldades e contribuir para a expressão do seu máximo potencial.

Bibliografia
Late preterm Infants: Near Term But Still in a Critical Developmental Period, Kugelman A, Colin AA. Pediatrics, 2013 Oct; 132(4):741-51
Multidisciplinary guidelines for the care of late preterm infants, Phillips RM. Journal of Perinatology (2013) 33, S5-S22
Long-term neurodevelopmental outcomes of infants born late preterm: a systematic review, Tripathi T, Dusing SC. Research and Reports in Neonatology 2015:5 91-111

 

Recém-Nascido (RN) com Factores de Risco Perinatal

O Recém-Nascido (RN) com Factores de Risco Perinatal é uma criança que, independentemente da idade gestacional ou peso ao nascer, apresenta uma probabilidade superior à média de mortalidade ou morbilidade  complicações decorrentes), habitualmente associada a condições ou circunstâncias sobrepostas ao normal decurso de um parto e adequação à vida extra-uterina.
Este período de risco decorre desde a altura da viabilidade (idade gestacional a partir da qual a sobrevivência extra-uterina é possível – 23 semanas), até aos 28 dias após o parto.
Existem inúmeras situações (antes, durante e depois do parto) que poderão constituir factores de risco para um recém-nascido, nomeadamente: prematuridade (idade gestacional inferior a 37 semanas), anóxia perinatal, nomalias congénitas, cromossomopatias, patologia metabólica, patologia infecciosa (sepsis, meningite), multiparidade (gémeos e trigémeos), baixo peso ao nascer (<2500gr), intervenções terapêuticas (antibioterapia, corticoterapia,  ventilação, intervenções cirúrugicas,…), abuso de susbtâncias, tabagismo, alcoolismo, etc…
De todas estas, uma das mais significativas é, seguramente, a prematuridade.
A Organização Mundial de Saúde estima que cerca de 15 milhões de crianças nascem de forma prematura em todo o mundo. No nosso país, o número de prematuros nascidos em 2013 atingiu o valor de 6476 crianças, representando 7,8% do total de partos nesse ano.
Os avanços tecnológicos das Unidades de Cuidados Intensivos Neonatais têm possibilitado uma diminuição da taxa de mortalidade dos recém-nascidos de risco, incluindo os prematuros. No entanto, a incidência de sequelas (morbilidade) mantém-se e daí a necessidade da existência de protocolos de seguimento com o objectivo de detectar as consequências a longo prazo e de intervir o mais precocemente possível.
Atualmente, a sobrevivência em RN prematuros com Idade gestacional inferior a 32 semanas excede os 85%. No entanto, mais de metade destas crianças poderão apresentar, mais tarde, alterações ao nível do neurodesenvolvimento.
Dada a prevalência significativa de patologia neurodesenvolvimental nestas crianças, o Centro de Desenvolvimento Infantil Diferenças implementou um Programa de Recém Nascidos com Factores de Risco no Período Perinatal, assegurado por um grupo de estudo (constituído por profissionais de diversas áreas), especializado na investigação e
intervenção neste grupo etário.
O follow up nestas crianças, que deverá ser garantido em continuidade desde a sua identificação, até à adolescência, é essencial para determinar a prevalência e natureza das patologias resultantes da prematuridade e outros factores de risco, traduzindo-se numa atuação preventiva através da identificação precoce das mesmas e referenciação para
terapias específicas.
A avaliação do neurodesenvolvimento destas crianças possibilita não só o diagnóstico de situações como a Paralisia Cerebral, a Perturbação do Desenvolvimento Intelectual ou Défices Sensoriais, mas também a identificação de situações mais subtis como Perturbação Específica de Aprendizagem, Perturbação Específica da Linguagem,
Perturbação do Desenvolvimento da Coordenação Motora, Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção e Insucesso Escolar.
Para a execução deste programa foram estabelecidas a priori idades chave para esta avaliação. Neste processo são incluídas áreas como a motricidade, cognição, linguagem, socialização e autonomia para posterior elaboração (quando necessário) de plano de intervenção, estabelecido de forma individualizada para cada criança.
Se as crianças e adolescentes afetados forem alvo de uma intervenção especializada eficaz, algumas destas perturbações poderão ser minimizadas. E, desta forma, o seu sucesso académico e a sua integração social e profissional na vida adulta serão mais fáceis de atingir.
É neste contexto que o Programa dos Recém-Nascidos com Factores de Risco pretende agir, (i) através da identificação destes recém-nascidos, (ii) do diagnóstico atempado de eventuais dificuldades, (iii) da intervenção individualizada com cada criança e sua família, com o objectivo último desta atingir o seu máximo potencial ao nível académico, social e profissional.

Dra. Ana Sofia Branco
Médica Pediatra

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