Breve nota a propósito da pandemia a COVID-19 e a Trissomia 21

As pessoas com trissomia 21 apresentam, pensa-se, um maior risco de infecção pelo SARSCoV2, embora esta afirmação careça, no tempo presente, de validade científica objectiva. Esta maior vulnerabilidade, não só para a contracção da infecção a SARSCoV2, mas, também e sobretudo, para a gravidade da mesma, poderá estar relacionada com, entre outros, os seguintes factores:

    1. As pessoas com trissomia 21 têm uma prevalência muito aumentada de défices da imunidade, fenómeno abundantemente estudado por diversas equipas de investigação científica;
    2. As pessoas com trissomia 21 apresentam, quase universalmente, uma forma moderada a grave de hipotonia muscular (geradora de uma menor capacidade de drenagem das secreções pulmonares);
    3. As pessoas com trissomia 21 têm uma muito maior incidência (e prevalência) de alterações anatómicas e funcionais significativas, mormente cardíacas, renais, pulmonares, hepéticas e de outros órgãos e sistemas;
    4. As pessoas com trissomia 21 apresentam uma prevalência muito aumentada de obesidade, ela própria um factor de risco para as infecções, nomeadamente pulmonares, e para um estado de inflamação crónico;
    5. As pessoas com trissomia 21, por razões ainda não bem conhecidas, experimentam um processo de envelhecimento precoce, expresso, não raramente, sobretudo a partir dos 35 de idade, por manifestações clínicas compatíveis com a Doença de Alzheimer;
    6. As pessoas com trissomia 21 exibem, amiúde, comportamentos de risco motivados pelo défice cognitivo, expressos por uma menor capacidade de adopção de medidas de protecção (afastamento físico do interlocutor adequado, lavagem das mãos eficaz e regular, etc., …);
    7. Nas pessoas com trissomia 21, sobretudo naquelas com idade superior a 18 anos, há, reconhecidamente, uma elevada taxa de institucionalização, facto potenciador da transmissão do agente patogénico;
    8. Adicionalmente, num cenário de escassez de oferta de cuidados de saúde, designadamente a disponibilidade de cuidados intensivos, as pessoas com trissomia 21, serão, quase de certeza, preteridas no acesso aos mesmos. A título de exemplo, transcrevemos as orientações propostas recentemente para as unidades de saúde do estado americano do Alabama: “… new guidance published Alabama officials says that persons with severe mental retardation, advanced dementia or severe traumatic brain injury may be poor candidates for ventilator support”.

     

    Até ao momento (19-04-2020), não encontrámos, na imprensa médica, referências relativas à morbilidade e à mortalidade das pessoas com trissomia 21 infectadas com o SARSCoV2. Há, tão-somente, o relato de uma cidadã norte-americana com trissomia 21, de 67 anos de idade, Emily Wallace, que terá morrido da doença em causa, sem que tivesse conseguido aceder a uma unidade de cuidados intensivos, aparentemente por decisão médica.

    Em Itália, por exemplo, para uma população de cerca de 60.000.000 de habitantes, haverá, de acordo com as estatísticas conhecidas, cerca de 38.000 pessoas com trissomia 21. Ou seja, a prevalência será, de aproximadamente, 0,63 casos por cada mil habitantes. Se preferirmos, haverá cerca de 6,3 pessoas com trissomia 21 em cada 10.000 habitantes. Hoje, dia 19-04-2020, em Itália, os números relativos à pandemia COVID-19 eram os seguintes: 152.271 pessoas infectadas; e 19.468 mortos. Se extrapolarmos estes dados para a população com trissomia 21, há razões para acreditar que o número de pessoas infectadas esteja próximo de 96; e que o número de mortos se aproxime de 12. Mas tudo isto é uma mera especulação, uma vez que, para além de não termos tido acesso a dados oficiais relevantes, desconhecemos ainda, para fundamentar este raciocínio, a maior parte das variáveis clínicas e epidemiológicas em causa, como a distribuição por idades, a comorbilidade pré-existente, o género, a terapêutica efectuada, etc., … É de realçar que não são conhecidos quaisquer dados relativos à população italiana com trissomia 21. E, com a excepção de raros relatos de óbitos na imprensa internacional, o mesmo no que concerne a outros países muito afectados pela pandemia COVID-19, como, entre outros, a China, a Coreia do Sul, a Espanha, a França, a Alemanha, o Reino Unido ou os Estados Unidos da América. Em Portugal, onde não existem, como é bem consabido, estatísticas fidedignas sobre o assunto, estimamos que haja cerca de 8.000 a 9.000 pessoas com trissomia 21, ou seja, por outras palavras, existirão cerca de 8 a 9 indivíduos com trissomia 21 por cada 10.000 habitantes (esta informação carece, como é óbvio, de validade científica). Isto significa que, no nosso país, de entre as 20.206 pessoas infectadas pelo SARSCoV2 (dados da DGS relativos ao dia 19-04-2020), poderá haver cerca de 18 pessoas com trissomia 21 atingidas. Relativamente, à mortalidade na população portuguesa com trissomia 21 infectada pelo SARSCoV2, embora os dados sejam completamente desconhecidos, tal como a dimensão e qualidade das diversas variáveis, clínicas e outras, implicadas no processo, temos razões para crer que, no momento presente, não haja registo de óbitos.

    Assim, acreditando que este é o melhor conhecimento científico possível no presente, depois de estudada a bibliografia médica internacional disponível e recente, embora muito escassa, sobre a infecção a SARSCoV2 na população com trissomia 21, recomendamos, genericamente, para as pessoas afectadas por esta doença genética:

    1. Execução, rigorosa e activa, das recomendações emanadas pela Direcção Geral de Saúde, como, entre outras:
      1. Isolamento social absoluto;
      2. Afastamento físico dos interlocutores (superior a 2 metros), mesmo familiares;
      3. Lavagem frequente das mãos com solutos apropriados;
      4. Uso de máscara facial em contextos sociais;
    2. Manter, tanto quanto possível, as rotinas diárias (sono; higiene; roupa; horários das refeições; TV, …);
    3. Prática frequente e moderada de exercício físico (nas situações de confinamento a uma casa sem jardim ou similar, poderá praticar-se dança, ginástica, etc., …);
    4. Alimentação saudável e variada, pouco calórica, com inclusão aumentada de alimentos ricos em vitaminas, oligo-elementos e anti-oxidantes, como frutas e legumes; beber muitos líquidos, sobretudo água;
    5. Administração de um polivitamínico corrente, que inclua a maioria das vitaminas e dos oligo-elementos, em doses estritamente convencionais (doses acrescidas de vitaminas poderão ser contraproducentes e até prejudiciais);
    6. Se permitido, com todas as precauções, fomentar a prática de pequenos passeios a pé, sempre com companhia;
    7. Cumprimento rigoroso do calendário vacinal recomendado para a trissomia 21;
    8. Tratamento vigoroso de qualquer outra doença entretanto diagnosticada (infecção urinária; furunculose; cáries dentárias; gengivites; conjuntivites; etc., …);
    9. Proporcionar um ambiente muito rico e estimulante de um ponto de vista cognitivo e linguístico, a fim de se evitar a ocorrência das diversas e indesejáveis regressões neurodesenvolvimentais, bem como de patologia do foro da saúde mental, sobretudo as perturbações depressivas;
    10. No caso de serem notadas manifestações clínicas sugestivas de COVID-19, ou seja, de infecção pelo SARSCoV2 (tosse; febre; dificuldade respiratória; falta de forças; etc., …), deverá ser estabelecido um contacto, imediato, com o SNS24.

     

    Iremos, de certeza, ultrapassar esta vicissitude. Sobretudo, se tivermos sempre presentes, no nosso pensamento, os preceitos éticos e humanistas que nos são tão caros e que nos guiam: o princípio da discriminação positiva e da inclusão social; e o ideal da valorização das diferenças das pessoas mais vulneráveis, mormente com perturbação do neurodesenvolvimento intelectual.

     

    Lisboa, 19 de Abril de 2020
    Miguel Palha
    Pediatra do Neurodesenvolvimento