Perturbações do Neurodesenvolvimento e COVID-19

No momento em que escrevemos estas palavras, o nosso país, a Europa e todo o mundo encontram-se a braços com uma grave pandemia a COVID-19, que pode ter efeitos verdadeiramente devastadores, a diversos níveis, nas nossas comunidades.

De um modo geral (há excepções, obviamente), os sujeitos com perturbações do neurodesenvolvimento exibem um maior risco de contraírem uma infecção a COVID-19, sobretudo aqueles que apresentam perturbação do desenvolvimento intelectual, perturbações do espectro do autismo e alterações comportamentais, mesmo não sindromáticas, como a impulsividade ou o défice de atenção, pelo seguinte motivo: esta população não consegue adoptar, de uma forma efectiva e eficaz, as medidas de higiene preventivas geralmente propostas pelas autoridades de saúde para a pandemia em causa. Estamos a falar, como é consabido, de atitudes de protecção sobejamente divulgadas, como, entre outras, o afastamento do interlocutor; a lavagem das mãos, etc. …


Adicionalmente, os casos de infecção que ocorram nestas populações terão, também, pensamos nós, pior prognóstico, pelas seguintes razões:

  1. Em muitos destes sujeitos, poderemos identificar, na etiologia das suas perturbações do neurodesenvolvimento, uma doença genética de base, geradora, amiúde, de um défice imunitário de gravidade variável, bem como de alterações anatómicas e funcionais significativas, mormente cardíacas, renais e de outros órgãos e sistemas (veja-se o caso, por exemplo, da trissomia 21);
  2. Como se isto não bastasse, tememos que, num cenário de escassez de oferta de cuidados de saúde, designadamente a disponibilidade de cuidados intensivos, estes nossos concidadãos possam ser preteridos no acesso aos mesmos.

Por estas razões, decidimos suspender precocemente as actividades presenciais dinamizadas pelos nossos técnicos e centros. Mas exortamos todas as partes interessadas a que os apoios continuem a ser realizados por via digital (tele-apoios).

Convictos de que conseguiremos vencer mais esta batalha, recomendamos, mais uma vez e de uma forma veemente, secundando, de resto, as autoridades de saúde, a firme adopção de medidas de protecção, sobretudo o isolamento social.

 

MARIA JOÃO PALHA

Presidente da Direcção da APPT21