Breves notas a propósito da nosografia neurodesenvolvimental

Como afirmam David J. Kupfer e Durrel A. Regier, no prefácio do DSM-5 (APA, 2013)1, “… Dado que não é possível estabelecer uma descrição completa dos processos patológicos subjacentes a todas as perturbações mentais, é importante sublinhar que os actuais critérios de diagnóstico constituem a melhor descrição da forma como aquelas se expressam e podem ser reconhecidas por médicos experientes”.

A comunidade científica reconhece, de uma forma geral, que os sistemas classificativos das perturbações mentais, designadamente o DSM-52 e a CID 103 (OMS, 1994; o CID será publicado, prevê-se, em 2018), apesar das insuficiências epistemológicas, diríamos, constituem-se como instrumentos de importância crucial para a prática clínica relacionada com estas matérias.

Um problema que tem sido referido com maior insistência está relacionado com a valoração relativa dos critérios de diagnóstico de algumas das perturbações. Expliquemo-nos melhor. Na Perturbação Depressiva Major4, o critério 6 (fadiga ou perda de energia quase todos) tem uma importância diagnóstica igual ao critério 9 (pensamentos de morte recorrentes (não apenas medo de morrer), ideação suicida recorrente sem plano específico ou tentativa de suicídio ou plano específico para cometer suicídio). Como será fácil de reconhecer, a valoração relativa destes dois critérios classificativos não poderá ser a mesma, dada a gravidade do último. No âmbito das Perturbações do Neurodesenvolvimento, o mesmo acontece com a Perturbação de Défice de Atenção e Hiperactividade5: o critério 2a (frequentemente, agita ou bate com as mãos ou os pés ou remexe-se quando está sentado) tem um valor diagnóstico idêntico ao critério 2i (frequentemente, interrompe ou interfere nas actividades dos outros [por exemplo, intromete-se nas conversas, jogos ou actividades, pode começar a utilizar as coisas das outras pessoas sem pedir ou receber permissão, para adolescentes e adultos, pode intrometer-se ou assumir o controlo do que os outros estão a fazer]). Ora, como é fácil de perceber-se, o critério 2i é, geralmente, muito mais intrusivo e disfuncional do que o critério 2a, razão por que, na prática médica, as respectivas valorações clínicas deveriam ser distintas e não contribuir de forma igual para a formulação do diagnóstico.

Mas, como precisa Luísa Figueira, no seu notável prefácio à edição portuguesa do DSM-56, “as categorias diagnósticas não são categorias naturais, mas construções do pensamento e da linguagem. Conduzem a sistemas de classificação categorial insuficientes e que não permitem a captação dos fenómenos psicopatológicos na sua complexidade. Uma mudança de paradigma de uma classificação puramente categorial para uma aproximação dimensional é uma das vias modernamente utilizadas para ultrapassar os problemas diagnósticos derivados de uma simplificação excessiva dos fenómenos mentais.…”.

Este problema, o da valoração clínica dos critérios classificativos das perturbações de saúde mental, tanto quanto sabemos por informações prestadas por diversos actores que integram os diversos Grupos de Trabalho do DSM-5, tem sido devidamente analisado e ponderado.

Vamos ver qual será a evolução e a direcção nosográficas nesta área da medicina verdadeiramente hipocrática.

  1. American Psychiatric Association. DSM–5. 5ª ed. Lisboa: Climepsi Editores; 2014. Prefácio; p.XLIII-XLVII.
  2. American Psychiatric Association. DSM–5. 5ª ed. Lisboa: Climepsi Editores; 2014.
  3. ICD-10 10th revision of the International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems (ICD), a medical classification list by the World Health Organization (WHO); 1994
  4. American Psychiatric Association. DSM–5. 5ª ed. Lisboa: Climepsi Editores; 2014. Perturbações Depressivas; p.183-222.
  5. American Psychiatric Association. DSM–5. 5ª ed. Lisboa: Climepsi Editores; 2014. Perturbação de Hiperactividade/Défice de Atenção; p.69-77.
  6. American Psychiatric Association. DSM–5. 5ª ed. Lisboa: Climepsi Editores; 2014. Prefácio à edição Portuguesa; p. VII-VIII.

 

Dra. Maria João Palha (Junho de 2017)
Interna de Pediatria do Centro Hospitalar de Lisboa Norte

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *